Tuesday, September 20, 2011

D. Januário Torgal: "Tenho vergonha do meu País"

O bispo das Forças Armadas acusa o governo de falta de sensibilidade e de incompetência diante da multidão de pessoas que já foram desapossadas da sua dignidade e do respeito por elas próprias. E diz que não quer ser cúmplice.
D. Januário Torgal: não devo dormir tranquilo perante toda esta multidão de pessoas que já foram desapossadas da sua dignidade. Foto da Lusa

Numa entrevista ao jornalista Manuel Vilas Boas, da TSF, o bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, diz não querer ser cúmplice com “esta multidão de pessoas que já foram desapossadas da sua dignidade, do respeito por elas próprias”, elogia a esquerda e acusa o governo de falta de sensibilidade e de incompetência.

“Tenho vergonha porque numa casa onde os mais pequenos não se podem sentar à mesa e comer do mesmo pão, que é o pão dos direitos e da dignidade, quem estiver a presidir à mesa deve sentir-se cúmplice”, disse D. Januário. “E se nos dizemos Igreja, servidores do mundo, devo sentir-me cúmplice e não devo dormir tranquilo perante toda esta multidão de pessoas que já foram desapossadas da sua dignidade, do respeito por elas próprias e a quem as promessas vão no pior sentido”.

Januário recorda o passado e diz ter tido vergonha da Igreja quando esta se calou e se ajoelhou diante de Salazar. Lembra que homens da Igreja foram educados no medo e não na liberdade e no à vontade de dizer o que pensam.

E afirma que hoje em dia, uma pessoa que toca em aspectos sociais é alguém que é de esquerda. “Mas então honra seja feita à esquerda”, afirma, apontando que há muitos comunistas que são mais católicos que muitos católicos”. E questiona: “porque é que só em momentos eleitorais se vai para as feiras? Se vai para os banhos de multidão e se dá beijinhos em gente mais simples?”

Quanto ao actual governo, D. Januário nota falta de sensibilidade nuns casos e noutros perfeita incompetência. “A gente vai dizer para o governo se sentar e nos ouvir”. Não fomos educados na arte do diálogo”, diz, referindo-se também aos que fazem críticas à Igreja.

O bispo das Forças Armadas aponta a falta de cultura democrática que ainda existe, “As pessoas não estão habituadas a quem vem manifestar oposição”.E dá como exemplo a coluna dominical de domingo de Frei Bento Domingues no Público. “Para a mentalidade de muitas pessoas, ele não é nada meigo, diz uma palavra que tem uma originalidade única. Mas há pessoas que ficam incomodadas...”

D. Januário alerta que “há muita gente que gostaria do regresso de Salazar. Isso é uma tragédia”. Mas, na sua opinião, devemos tratar essas pessoas como o Salazar nunca ousou tratar quem diferia dele. “Tratar as outras pessoas de forma diferente que essas pessoas, nas suas fontes culturais, trataram as outras”, isto é, com democracia.

O bispo das Forças Armadas alerta que “há quem não defenda a ditadura, mas que defenda que uma ditadurazinha de algum tempo, que uns safanõezinhos faziam muito bem. Eu digo, os safanões, o prender, o bater só faz mal.”

O que o leva à crítica à guerra do Iraque. “Houve jornalistas que me chamaram 'fundamentalista do Iémene' quando eu disse que estava em total desacordo com a guerra do Iraque”, recorda. D. Januário defende a Primavera dos países árabes e nota que não houve tiques religiosos, o que houve foi tiques de cidadania. “São islâmicos, e portanto o Islão é compatível com a liberdade e até com a democracia. Ao contrário do sr. Bush, que queria impor a democracia com as armas, pode-se chegar à democracia através da razão”.

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